Por Guilherme Gonçalves Machado
§ A presente obra propõe que a estrutura frasal não é exclusividade do discurso verbal. Ela se manifesta com configurações específicas, porém analogicamente correlatas, em pelo menos três grandes sistemas semióticos: a linguagem verbal, a música e a imagem. Esta proposição não é uma metáfora. Não estamos dizendo que a música é "como se fosse" uma linguagem, ou que a imagem "funciona como" uma frase. Estamos afirmando que a articulação de unidades mínimas significantes em unidades maiores, delimitadas por cesuras e dotadas de coerência interna — aquilo a que chamamos frase —, constitui um princípio organizacional que transcende qualquer substância expressiva particular. A frase é um modo de ser do sentido, não uma propriedade da gramática.
§ Esse entendimento não é inédito na história do pensamento, embora nunca tenha sido formalizado como teoria. Já em 1562, o músico italiano Gioseffo Zarlino podia escrever, em suas Istitutioni Harmoniche, que "a cadência tem tanto valor na música quanto o ponto tem para o discurso, e por isso ela pode ser chamada de ponto na música". No início do século XIX, o teórico alemão Koch observava que "o efeito da música consiste em tornar perceptíveis os movimentos internos do espírito através de uma analogia". Em 1861, no Ceará, o gramático Manoel Soares da Silva Beserra, em seu Compêndio de Gramática Filosófica, propunha que "a luz tem sete cores, como o som tem sete vozes", e comparava a boca humana a um prisma que decompõe a voz assim como o prisma óptico decompõe a luz. Wassily Kandinsky, em 1926, no tratado Ponto e Linha sobre Plano, analisava os elementos visuais fundamentais com a mesma sistematicidade com que um gramático analisaria as partes do discurso. E Esther Scliar, em sua Fraseologia Musical de 1982, definia a fraseologia como o estudo da "projeção temporal dos sons articulados em pequenos agrupamentos delimitados por cesuras", acrescentando que tais agrupamentos "concatenam-se entre si, formando conjuntos maiores" — descrição que seria igualmente válida para a sintaxe verbal.
§ Estes são estratos de um mesmo saber que atravessa séculos, culturas e disciplinas, sem nunca ter sido reunido em uma formulação teórica unificada. A presente obra aspira a cumprir essa tarefa. Denominamos nossa proposição Teoria Geral da Frase Semiótica: geral, e não universal, porque reconhecemos com Varrão que a analogia não elimina a anomalia, e que nem sempre será possível uma correspondência ampla, geral e irrestrita entre todos os sistemas semióticos. Trata-se, como em uma gramática comparada, de uma teoria semiótica que busca explicar os elementos mais importantes da maioria dos sistemas significantes, sem a pretensão de esgotá-los.
(Continua como um Folhetim!)

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