Pressupostos Teóricos da Pesquisa
I. Natureza e escopo da investigação
A presente obra constitui uma gramática de natureza enciclopédica, orientada por um viés compreensivo e interpretativo dos fenômenos linguísticos. Trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter teórico-expositivo e dissertativo-argumentativo, que recusa conscientemente o monismo metodológico e a hiperespecialização disciplinar em favor de uma abordagem interdisciplinar rigorosa. O escopo não se limita à descrição estrutural das línguas, mas se estende às dimensões histórica, social, política, estética e simbólica da linguagem como prática humana.
A investigação resulta de uma vida dedicada ao estudo, à leitura e à pesquisa — mais de quatro décadas de imersão contínua em línguas naturais, suas literaturas, suas músicas, suas escrituras sagradas e profanas. Os dados biográficos, nesta perspectiva autoetnográfica (Ellis & Bochner, 2000), não são externalidades a serem descartadas, mas evidência empírica que informa a seleção do corpus, a formulação das hipóteses e a arquitetura mesma da obra.
II. A comunidade de fala como ponto de partida
O conceito de comunidade de fala (speech community), tal como formulado por Leonard Bloomfield (1933), constitui o ponto de partida empírico desta investigação. Para Bloomfield, a comunidade de fala é "um grupo de pessoas que interagem por meio da fala" — definição de caráter territorial e comportamental que ancora a língua no espaço físico: o bairro étnico, a aldeia, a nação.
Esta definição é aqui adotada, mas progressivamente expandida em três direções:
(a) Expansão sociolinguística. William Labov (1972) desloca o critério definidor da comunidade de fala: não mais a uniformidade de uso, mas a participação em normas compartilhadas de avaliação. A comunidade de fala laboviana é um grupo que compartilha atitudes, julgamentos e estereótipos sobre a língua — mesmo quando seus membros falam de modos distintos. Isso permite integrar a variação como dado constitutivo, não como ruído.
(b) Expansão sociológica. Pierre Bourdieu (1982) situa a comunidade de fala no interior de um campo de forças simbólicas onde se disputam legitimidade, prestígio e o direito à nomeação. A língua não é apenas meio de comunicação; é instrumento de dominação, marca de distinção, objeto de violência simbólica. Falar é sempre falar de um lugar — social, institucional, axiológico.
(c) Expansão espacial. A comunidade de fala não habita apenas um território abstrato; ela se inscreve em paisagens — visuais, sonoras, temporais — que materializam a presença das línguas no mundo sensível. Esta expansão é desenvolvida na seção seguinte.
III. O espaço como macrocategoria multidimensional
A categoria espaço, tal como operacionalizada nesta obra, constitui uma macrocategoria permanente de análise, composta por cinco dimensões sobrepostas e mutuamente constitutivas:
(i) Espaço geográfico-territorial. Substrato físico onde a comunidade de fala se enraíza: fronteiras, acidentes geográficos, rotas de migração, distribuição demográfica. A tradição da geografia linguística (Gilliéron & Edmont, 1902-1910) e da geossociolinguística brasileira fornece os instrumentos cartográficos para este nível de análise.
(ii) Espaço social. Estrutura de posições ocupadas pelos falantes segundo variáveis de classe, gênero, geração, escolaridade e rede de interação. A sociolinguística variacionista (Labov, 1972; Weinreich, Labov & Herzog, 1968) oferece o aparato descritivo para a estratificação linguística.
(iii) Espaço simbólico. Campo de produção, circulação e disputa de sentidos e valores, onde operam a violência simbólica e as lutas por legitimidade linguística (Bourdieu, 1982). É neste espaço que se decide o que é "língua" e o que é "dialeto", o que é "culto" e o que é "erro", o que merece escrita e o que permanece apenas oral.
(iv) Paisagem linguística. Presença visual das línguas no espaço público: placas, cartazes, grafites, letreiros, fachadas, monumentos — toda escrita exposta à leitura coletiva. O campo de estudos da Linguistic Landscape (Landry & Bourhis, 1997; Shohamy & Gorter, 2009), designado na tradição germanófona como Sprachlandschaft, oferece as ferramentas analíticas para este nível. A paisagem linguística não é neutra: ela hierarquiza línguas, visibiliza algumas e apaga outras, opera como índice de vitalidade etnolinguística e como arena de disputas identitárias.
(v) Paisagem sonora. Ambiente acústico onde as línguas ressoam: vozes nas ruas, músicas irradiadas, pregões, sinos, chamados ao culto, cantos de trabalho, ruídos urbanos. O conceito de soundscape, desenvolvido pelo compositor e pesquisador R. Murray Schafer (1977), permite abordar a dimensão auricular da presença linguística no espaço. A língua cantada — das tradições populares às mídias de massa — é componente constitutivo desta paisagem.
Estas cinco dimensões não operam em isolamento. Interpenetram-se, sobrepõem-se, tensionam-se. A placa bilíngue num bairro imigrante é simultaneamente marca territorial, índice sociolinguístico, objeto de disputa simbólica, elemento visual e, quando lida ou cantada, componente sonoro.
IV. A paisagem como acúmulo de tempos
A paisagem, tomada como categoria epistemológica, é ponto de convergência de múltiplos campos do conhecimento: a geografia, a semiótica, a antropologia, a arquitetura, a história, a estética. Como observou o geógrafo Milton Santos:
"A paisagem é um acúmulo de tempos", "uma escrita sobre a outra", "um conjunto de objetos que têm idades diferentes", "uma herança de muitos diferentes momentos" (SANTOS, 1988; 2006).
Nesta perspectiva, a paisagem linguística de um território não é dado estático, mas palimpsesto: camadas de línguas, de escritas, de sonoridades depositadas pelo tempo histórico. No Brasil, esse palimpsesto inclui: os substratos das línguas indígenas dos troncos Tupi e Macro-Jê; as camadas das línguas africanas trazidas pela diáspora forçada; os estratos das línguas de imigração europeia e asiática; a hegemonia expansiva do português brasileiro em suas múltiplas variedades; as resistências das línguas minoritárias em comunidades quilombolas, indígenas e imigrantes.
Uma escuta idônea e um olhar atento revelam uma paisagem linguística brasileira exuberante, plural, diversa — em frontal oposição ao mito do Brasil como país de uma só língua.
V. A semioesfera como horizonte
O conjunto dessas dimensões espaciais e temporais inscreve-se no horizonte mais amplo da semioesfera, conceito desenvolvido por Iuri Lotman (1984, 1990) no âmbito da Escola Semiótica de Tartu-Moscou. A semioesfera designa o espaço semiótico total fora do qual a produção de sentido não é possível — análogo à biosfera para os organismos vivos.
Enquanto conceito-moldura, a semioesfera permite situar a análise das paisagens linguísticas, sonoras e visuais no interior de um continuum semiótico onde cultura, língua, memória e território se constituem mutuamente. A fronteira da semioesfera — zona de tradução, de contato, de tensão entre o próprio e o alheio — é particularmente produtiva para pensar as situações de plurilinguismo, diglossia e conflito linguístico.
Todavia, para a análise operacional de cada tipo de paisagem, recorremos a ferramentas específicas: Landry e Bourhis para a paisagem visual, Schafer para a paisagem sonora, Milton Santos para a temporalidade acumulada, Bourdieu para a dimensão simbólica. A semioesfera é o horizonte; as paisagens são os recortes.
VI. A Literatura Comparada como escopo interdisciplinar
A Literatura Comparada constitui um dos escopos teóricos fundamentais desta investigação. Seu aporte intrinsecamente interdisciplinar legitima e instrumentaliza o trânsito entre línguas, literaturas, artes e campos do conhecimento que esta gramática se propõe a realizar.
Adotamos a definição programática de Álvaro Manuel Machado e Daniel-Henri Pageaux:
"[...] disciplina atenta aos fenómenos especificamente literários, mas situando-os numa visão cultural englobante; disciplina cada vez mais preocupada em eliminar as barreiras entre os vários domínios da investigação universitária do fenómeno literário em si, quer ampliando os estudos linguísticos como fonte de culturas diversas mas interligadas, quer estabelecendo contactos entre a literatura e as outras formas da actividade criadora do homem. Em suma, disciplina de uma nova forma de humanismo" (MACHADO; PAGEAUX, 1988).
Esta concepção encontra eco na formulação clássica de Henry H. H. Remak:
"[…] o estudo da literatura além dos limites de um país particular, e o estudo das relações entre, de um lado a literatura e de outro, outras áreas do conhecimento e da crença tais como as artes (por exemplo, a pintura, a escultura, a arquitetura, a música), a filosofia, a história, e as ciências sociais, a ciência, a religião, etc. Em suma, é a comparação entre uma literatura e outra ou outras, e a comparação da literatura com as demais esferas da expressão humana" (REMAK, 1961).
A Literatura Comparada assim entendida oferece a moldura epistemológica para os tomos desta gramática que ultrapassam a descrição estrutural e adentram os domínios da canção (Tomo IV: "E Seus Cantares"), da imagem (Tomo V: "E Sua Iconografia"), da espiritualidade (Tomo VI: "E Suas Tradições Espirituais") e da narrativa histórica (Tomo VII: "E Suas Histórias"). Não se trata de outra abordagem senão de reconhecer que a língua é indissociável das formas culturais em que se realiza.
VII. A tradição filológica e a linguística histórica
A dimensão diacrônica da investigação ancora-se na tradição da Filologia Românica e da Linguística Histórica Comparada. A obra de Wilhelm Meyer-Lübke (Grammatik der Romanischen Sprachen, 1890-1902) permanece referência incontornável para a compreensão da diferenciação das línguas românicas a partir do latim vulgar.
Cumpre observar, como o fez Sílvio Elia (1974), que um estudo que considera diferentes sincronias constitui, em rigor, um estudo diacrônico — o qual não se confunde, contudo, com a Linguística Histórica propriamente dita. A presente obra opera em regime pancrônico: atravessa a totalidade do tempo histórico disponível, do povoamento pré-colombiano às dinâmicas contemporâneas, tratando a cronologia como campo unificado de investigação.
VIII. Critérios de cientificidade
A presente investigação assume o compromisso de conformidade com dois dos três requisitos de cientificidade propostos pelo linguista dinamarquês Louis Hjelmslev nos Prolegômenos a uma teoria da linguagem (1943):
(a) O princípio da não-contradição. Exigência mínima de inteligibilidade, premissa da comunicação científica. Um conhecimento particular só pode existir em coerência quando não contradiz o conhecimento geral do campo em que se insere, nem os conhecimentos de campos adjacentes.
(b) O princípio da exaustividade. A descrição deve dar conta da totalidade do objeto, não apenas de fragmentos convenientes. Este princípio fundamenta a recusa do recorte hiperespecializado que, ao ganhar profundidade, perde a perspectiva fenomenológica do todo.
Quanto ao terceiro requisito hjelmsleviano — a simplicidade —, esta obra dele se afasta deliberadamente. Em seu lugar, adota-se o princípio da complexidade: o reconhecimento de que as línguas naturais são fenômenos multidimensionais, irredutíveis a um único domínio explicativo, e que a descrição adequada exige a articulação de múltiplas perspectivas teóricas e metodológicas.
IX. Síntese: um programa de pesquisa interdisciplinar
O arcabouço teórico aqui delineado pode ser sintetizado como um programa de pesquisa interdisciplinar que toma o espaço geográfico e suas paisagens como categoria permanente de análise multissemiótica. A paisagem — visual, sonora, temporal — é categoria epistemológica capaz de revelar o homem e sua cultura: sua relação consigo mesmo e com o outro, sua relação com a natureza, com a economia, com a arquitetura, com o processo civilizatório.
O que a paisagem tem a dizer além da mera função descritiva de informar sobre características geográficas de um lugar? Tudo, ou quase tudo. A paisagem linguística de um território é índice de sua história, espelho de suas hierarquias, arena de suas disputas, arquivo de suas memórias. Descrevê-la com rigor é, ao mesmo tempo, compreendê-la e interpretá-la.
É este o horizonte da presente Gramática das línguas naturais e seus dialetos.
Referências Bibliográficas
ALTENHOFEN, Cléo Vilson. Bases para uma política linguística das línguas minoritárias no Brasil. In: NICOLAIDES, Christine et al. (Org.). Política e Políticas Linguísticas. Campinas: Pontes, 2013.
BLOOMFIELD, Leonard. Language. New York: Henry Holt, 1933.
BOURDIEU, Pierre. Ce que parler veut dire: l'économie des échanges linguistiques. Paris: Fayard, 1982.
ELIA, Sílvio. Preparação à linguística românica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1974.
ELLIS, Carolyn; BOCHNER, Arthur P. Autoethnography, Personal Narrative, Reflexivity: Researcher as Subject. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. (eds.). Handbook of Qualitative Research. 2nd ed. Thousand Oaks: Sage, 2000.
GILLIÉRON, Jules; EDMONT, Edmond. Atlas linguistique de la France. Paris: Champion, 1902-1910. 10 vols.
HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. Tradução de J. Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, 1975 [1943].
LABOV, William. Sociolinguistic Patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1972.
LANDRY, Rodrigue; BOURHIS, Richard Y. Linguistic Landscape and Ethnolinguistic Vitality: An Empirical Study. Journal of Language and Social Psychology, v. 16, n. 1, p. 23-49, 1997.
LOTMAN, Iuri. Universe of the Mind: A Semiotic Theory of Culture. Translated by Ann Shukman. London: I.B. Tauris, 1990.
MACHADO, Álvaro Manuel; PAGEAUX, Daniel-Henri. Da Literatura Comparada à Teoria da Literatura. Lisboa: Edições 70, 1988.
MEYER-LÜBKE, Wilhelm. Grammatik der Romanischen Sprachen. Leipzig: Fues's Verlag (R. Reisland), 1890-1902. 4 vols.
REMAK, Henry H. H. Comparative Literature: Its Definition and Function. In: STALLKNECHT, Newton P.; FRENZ, Horst (eds.). Comparative Literature: Method and Perspective. Carbondale: Southern Illinois University Press, 1961.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado: Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Geografia. São Paulo: Hucitec, 1988.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006 [1996].
SCHAFER, R. Murray. The Soundscape: Our Sonic Environment and the Tuning of the World. Rochester, VT: Destiny Books, 1994 [1977].
SHOHAMY, Elana; GORTER, Durk (eds.). Linguistic Landscape: Expanding the Scenery. New York: Routledge, 2009.
WEINREICH, Uriel; LABOV, William; HERZOG, Marvin I. Empirical Foundations for a Theory of Language Change. In: LEHMANN, Winfred P.; MALKIEL, Yakov (eds.). Directions for Historical Linguistics. Austin: University of Texas Press, 1968.
