quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Memórias Políticas Cinquentenárias De Uma Alma Irrequieta





Fui testemunha ocular do então presidente Fernando Collor confiscando os ativos da poupança do povo brasileiro. Seu braço direito, P.C. Farias, foi assassinado em uma mansão com um único tiro no coração, uma execução profissional, irretocável, obra de maestria, macabra maestria. Collor, que foi um aventureiro na política, correu por fora, ganhou, roubou, roubou sem dividir o suficiente, roubou de quem também já roubava, sofreu seu vexaminoso impeachment com um protagonismo um tanto surpreendente e depois irreplicável nas ruas dos estudantes, os "cara-pintadas", para enfim, porque este parágrafo não é sobre ele, cumprir ainda em 2026 prisão domiciliar agora como senador da república.

Triste cenário político brasileiro, de planos históricos superpostos, refletindo e causando décadas de continuísmo político, não obstante a alternância de poderes formalmente constituídos. A polarização política e ideológica atual parece agravar o contexto. Mesmo pressionados pelo Brasil Real, o Brasil Oficial segue a estratégia de sempre perder os anéis para manter os dedos, mesmo com apenas 4 dedos restantes em uma das mãos (e simbolicamente, a mão de um presidente), conceder a mudança para que tudo permaneça tal qualmente esteja, e este parece sim ser o percurso histórico na produção de sentidos ideológicos e sociais das forças políticas no Brasil, o embate do real contra o oficial, como já discernia no país do seu tempo o Bruxo do Cosme Velho.

O Brasil Real é o da informalidade econômica, parcialmente às margens do Estado, um país de imigrantes desde sempre, um país de subúrbios e periferias, um país de cultura popular, de catolicismo popular, de sabedoria popular, que o Brasil Oficial insiste em assediar com seu populismo basicamente eleitoreiro, semieleitoral (porque ainda semianalfabeto?), inesgotável. 

O fato novo e digno de notícia é a interseção pela violência na dicotomia referida acima: vastos territórios ocupados não mais apenas pelo narcotráfico, mas pelo narcoestado, nas promíscuas confluências dos podres poderes de diferentes e diversas instâncias governamentais. Um cancro corroendo as instituições e os territórios do Estado desde seu fígado, seus pulmões, seu coração. Alma vendida ao diabo. É aqui onde nos damos as mãos, todos reféns do narcoestado, território ocupado, cidadania sequestrada, soberania mutilada, onde o cinismo é inevitavelmente necessário.

(Continua como um Folhetim oitocentista)



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