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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O Atlas das Passagens Fronteiras, metáforas e a glotopolítica das línguas Guilherme Gonçalves Machado | Rio de Janeiro | fevereiro de 2026

O Atlas das Passagens

Fronteiras, metáforas e a glotopolítica das línguas

Guilherme Gonçalves Machado | Rio de Janeiro | fevereiro de 2026




Tomamos de empréstimo o título da obra monumental de Walter Benjamin para designar este movimento epistemológico. Assim como as galerias parisienses do século XIX eram zonas de trânsito onde se justapunham as mais diversas mercadorias, a ciência linguística constituiu-se historicamente como uma zona de passagem. Por ela transitaram — e ainda transitam — metáforas e modelos importados de outros saberes. Não se trata de contaminação, mas de fluxo. O linguista atua aqui como o flâneur benjaminiano: aquele que percorre as fronteiras entre a Biologia, a Geografia e a Química, recolhendo os conceitos que, ressignificados, permitirão descrever o inefável da linguagem humana.

A noção benjaminiana de 'Passagens' ressoa com vigor inesperado no coração da sintaxe: a Transitividade. Etimologicamente enraizado no latim transire — o ato de 'passar através' —, o verbo transitivo opera, na arquitetura da frase, como a própria Galeria parisiense. Ele é o corredor diáfano que permite o trânsito da ação; o canal de mediação por onde a energia do sujeito passa até transformar o objeto. Se para Benjamin as passagens eram o teatro da mercadoria e da memória, para a linguística, a transitividade é o teatro da ação humana sobre o mundo. O verbo é a passagem; o sujeito, o flâneur que, ao percorrê-la, impacta a realidade que o aguarda na outra ponta.

Não obstante a crítica estruturalista ao viés positivista — que metaforizava a língua como um organismo biológico sujeito ao ciclo vital —, a classificação genética, herdeira direta dessa epistemologia, mantém-se produtiva e válida na contemporaneidade. Impõe-se, portanto, ao pesquisador e ao divulgador da ciência um escrutínio permanente: o exame minucioso de teorias e métodos, resguardando o distanciamento crítico e a isenção, avesso a dogmatismos. A obsolescência de certas metáforas interdisciplinares pretéritas não deve interditar a busca por nova fertilidade intelectual em outros campos do saber; o insucesso de um empréstimo conceitual não invalida a interdisciplinaridade como método.

Ilustração eloquente dessa fertilidade reside na interseção entre a Geografia e a Linguística Cognitiva, notadamente no conceito de 'metáforas orientacionais' postulado por Lakoff e Johnson. A própria taxonomia das línguas germânicas — segmentada entre Hochdeutsch (Alto Alemão) e Niederdeutsch (Baixo Alemão) — transcende a mera convenção arbitrária para revelar um determinismo fenomenológico: é a experiência corpórea do relevo e da altitude que nomeia a língua.

Todavia, o distanciamento crítico supracitado faz-se aqui imperioso para desvelar a glotopolítica subjacente: a verticalidade topográfica foi historicamente ressignificada em hierarquia axiológica. O 'Alto', originalmente um descritor geográfico das terras montanhosas, transmutou-se metaforicamente em 'elevado' ao ser sacralizado pela escolha de Lutero para a tradução bíblica, capturando assim o prestígio da liturgia e fundando a norma culta letrada. Em contrapartida dialética, o 'Baixo', circunscrito às planícies, amalgamou-se indissociavelmente ao estigma do rústico e do agrário; a topografia plana tornou-se metonímia para o campesinato pouco letrado que nela labutava, consolidando uma axiologia onde a altitude física determinou, por séculos, a hierarquia social. Evidencia-se, assim, como um empréstimo conceitual da geografia física, quando não escrutinado, pode naturalizar estruturas de poder social sob a aparência de neutralidade descritiva.

Por outro lado, se a metáfora biológica do 'organismo' mostrou-se epistemologicamente datada, o mesmo não se pode dizer da metáfora química da Valência Verbal. Introduzida pela tradição francesa de Lucien Tesnière, a apropriação do conceito de valência — a capacidade de um átomo (o verbo) atrair um número específico de outros elementos (actantes) — provou ser uma fecundidade teórica inesgotável. Ao deslocar o sujeito da posição de soberano para a de mero actante subordinado ao imperativo semântico do verbo, a Teoria da Valência ofereceu à análise morfossintática brasileira, notadamente nos trabalhos de Francisco Borba e Mário Perini, um rigor descritivo que a tradicional transitividade jamais alcançou. Eis um caso onde a interdisciplinaridade não foi apenas um empréstimo estético, mas uma ferramenta heurística que redefiniu a compreensão da estrutura oracional.

O método que proponho, e que se realiza como um exercício de resistência intelectual, fundamenta-se em uma revisão bibliográfica de natureza algorítmica e recursiva. Operando como uma estrutura de repetição — análoga aos laços iterativos da lógica de programação (loops) —, o processo busca a ressignificação contínua através da observação, da análise comparatista e do contraste sistemático das grandes teorias. Essa praxis exige a suspensão de juízos a priori, recusando tanto a rejeição sumária quanto a adesão automática a cânones vigentes. Busca-se uma soberania investigativa que responda apenas aos dados e à lógica interna do método, em diálogo pancrônico e transparente com a tradição filosófica, científica e intelectual, blindando-se contra a conveniência política do consenso, o enviesamento induzido por financiamentos dirigidos e o aparelhamento ideológico departamental nas instituições.

Um exemplo eloquente dessa filtragem crítica é o tratamento dado ao Gerativismo. Se, por um lado, o edifício teórico chomskiano sofreu abalos internos e críticas severas quanto à sua fundamentação biológica estrita, por outro, sua formalização matemática da sintaxe e a descrição da recursividade permanecem contribuições inestimáveis. É justamente essa arquitetura formal da língua, isolada de seus dogmas inatistas, que hoje encontra uma "segunda vida" e suprema utilidade no desenvolvimento dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) e na Inteligência Artificial.

É com esse mesmo espírito de resgate crítico e inovação metodológica que apresentamos, através de textos autorais e multitemáticos, a nossa Gramática das línguas naturais e seus dialetos, nossa humilíssima contribuição para o estudo, a pesquisa e o ensino das línguas do mundo.


SEMIOGRAFIA Sistema Axiomático de Operações Semióticas sobre Matrizes N-Dimensionais de Signos

https://zenodo.org/records/19546051 Résumé   Ce working paper propose la Sémiographie : un système axiomatique d'opérations sémiotiqu...