Mostrando postagens com marcador linguística. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador linguística. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Gramática das línguas naturais e seus dialetos: suma polifônica


Apresentação da obra Gramática das línguas naturais e seus dialetos: suma polifônica

Guilherme Gonçalves Machado


Fevereiro de 2026



Nota preliminar

O presente texto constitui uma apresentação discursiva e contextualizada da obra Gramática das línguas naturais e seus dialetos: suma polifônica, cujo artigo inaugural — contendo a formulação integral da natureza, do escopo, do método, do objeto, das hipóteses e do marco teórico-metodológico — encontra-se publicado em acesso aberto, com DOI, no repositório Zenodo:


MACHADO, Guilherme Gonçalves. Gramática das línguas naturais e seus dialetos: suma polifônica — Da natureza, do escopo e do método da obra (Artigo inaugural). Manuscrito não publicado (work in progress). Fevereiro de 2026. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.18634490


O que se segue não reproduz o artigo, mas o contextualiza, expande e comenta — operando, desde já, o procedimento que a própria obra propõe: o comentário como espaço autoral.



A situação de partida: uma lacuna no campo

As ciências da linguagem, ao longo do século XX, produziram um volume extraordinário de conhecimento sobre as línguas naturais. Tradições teóricas diversas — o estruturalismo saussuriano, o funcionalismo praguense, o gerativismo chomskiano, a tipologia greenbergiana, a linguística cognitiva, a análise do discurso, a sociolinguística, entre outras — acumularam descrições, formalizações e teorias de enorme sofisticação. Paralelamente, campos como a filosofia da linguagem, a semiótica, a hermenêutica e a historiografia linguística desenvolveram reflexões fundamentais sobre a natureza, os limites e as condições de possibilidade da linguagem humana.


Esse acúmulo, contudo, é também uma fragmentação. Os campos se hiperespecializaram. O tipólogo raramente dialoga com o semioticista. O historiador da linguística raramente opera com instrumentos da hermenêutica filosófica. O gramático descritivo raramente situa seus dados no horizonte da filosofia da linguagem. As tradições de comentário textual — que durante milênios foram o modo privilegiado de produção de conhecimento sobre a linguagem — foram relegadas à condição de curiosidades históricas, sem que seus procedimentos formais fossem reconhecidos como tecnologias intelectuais ainda operacionais.


A obra cuja apresentação aqui se faz nasce dessa constatação: há uma lacuna no campo. Não falta conhecimento — falta organização crítica do conhecimento. Não faltam vozes — falta um espaço em que essas vozes possam coexistir sem se anularem. Não falta tradição — falta uma releitura da tradição que a torne disponível para o presente sem deformá-la por anacronismo.



O gênero: por que "suma"

A escolha do termo suma para designar o gênero discursivo da obra não é casual nem meramente evocativa. As grandes Summae da Idade Média — particularmente a Summa Theologiae de Tomás de Aquino — nasceram de uma situação análoga à que acabamos de descrever: havia tradição demais, autoridades demais, contradições demais, e os gêneros existentes (o comentário direto às fontes, a glosa, a sententia) já não bastavam para organizar o acumulado. A Suma nasceu como gênero de segundo grau: não comenta uma fonte — reorganiza criticamente todo um campo do saber.


É nesse sentido estrutural que a obra se inspira na Suma: como tentativa autônoma e sistemática de reorganizar criticamente os dados de uma tradição. A inspiração, entretanto, é composicional — não doutrinária. A Suma medieval operava sob regime monológico: as vozes eram convocadas para serem avaliadas e, ao final, subordinadas à determinatio do autor. A obra aqui apresentada opera sob outro regime: o regime polifônico.



O método: por que "polifônica"

O conceito de polifonia, tal como o empregamos, carrega deliberadamente duas camadas de sentido que se sobrepõem e se enriquecem mutuamente.


A primeira é musical. O termo polyphōnía (πολυφωνία), do grego polýs ("muitos") e phōnḗ ("voz"), designa na tradição musical ocidental — desde a Ars Antiqua e a Ars Nova medievais — a técnica composicional em que linhas melódicas independentes coexistem simultaneamente, cada uma com sua identidade, governadas por regras de contraponto que asseguram a coerência do todo sem suprimir a autonomia das partes. O compositor polifônico não toca nenhuma das linhas — organiza-as. E é da tensão entre as independências que nasce a beleza.


A segunda camada é bakhtiniana. Bakhtin (2013) transpôs o conceito ao domínio do discurso, designando a coexistência de vozes ideológicas autônomas e equipolentes em um texto — vozes que não são subsumidas pela consciência do autor, mas mantêm sua alteridade irredutível. A recepção de Bakhtin — particularmente por Kristeva (1969), Ducrot (1984) e Authier-Revuz (1982) — estendeu canonicamente o conceito a domínios que transcendem a literatura: a enunciação linguística, a análise do discurso, a semiótica da cultura.


Na obra, a polifonia é método: é o modo pelo qual se opera a coexistência pancrônica das vozes da tradição gramatical, filosófica e linguística. Varrão e Jakobson, Rashi e Benveniste, Tomás de Aquino e Peirce não estão em relação de superação dialética — estão em contraste polifônico. Cada voz conserva sua autonomia, fala a partir de seu próprio horizonte, e é lida em seus próprios termos. O autor não se alinha compulsoriamente a nenhuma delas: manifesta-se no comentário — que é o espaço em que a voz autoral emerge, não como determinatio que encerra o debate, mas como mais uma linha na polifonia.


A analogia funciona, nesse quadro, como o contraponto da polifonia: é o princípio que regula as consonâncias e dissonâncias entre as vozes, assegurando que a pluralidade não degenere em cacofonia, nem a organização em monologia.



O pressuposto: a pancronia

Um dos pressupostos epistemológicos centrais da obra é a pancronia, conceito formulado por Castilho (2010), tributário de Coseriu (1958), que propõe a superação da dicotomia saussuriana entre sincronia e diacronia. A língua, observada pancronicamente, é vista em sua totalidade temporal e estrutural: estados e processos coexistem, e a separação entre o estudo do sistema (sincronia) e o estudo da mudança (diacronia) é reconhecida como recorte metodológico, não como propriedade do objeto.


A pancronia justifica, simultaneamente, três operações que a obra pratica: o inventário (recolha de formas, estruturas e teorias de todas as épocas), a comparação (confronto entre dados sincrônicos e diacrônicos, entre línguas e entre tradições) e a prospecção (formulação de hipóteses sobre o possível linguístico a partir do atestado). E é a polifonia que torna a pancronia operável: as vozes de todas as épocas coexistem no espaço da obra sem hierarquia temporal — o mais antigo não é "primitivo", o mais recente não é "superior".


A obra opera, assim, com um procedimento que é simultaneamente dedutivo (princípios gerais projetados sobre línguas particulares), indutivo (ocorrências particulares elevadas a regularidades) e abdutivo (hipóteses formuladas a partir de fatos surpreendentes, nos termos de Peirce). Castilho (2010) adverte que esses procedimentos não se excluem necessariamente — posição que adotamos integralmente.


O objeto: três camadas simultâneas

O objeto de estudo da obra não é simples — é estratificado em três camadas simultâneas e retroalimentantes.


A primeira camada são as próprias línguas naturais e seus dialetos: sua fonética, sua fonologia, sua prosódia, seu léxico, sua morfossintaxe, sua semântica, sua estilística, sua pragmática, sua dimensão metalinguística.


A segunda camada são as tradições de descrição e comentário sobre essas línguas: gramáticas, tratados filosóficos, teorias linguísticas, obras de exegese. Essas tradições não são apenas referências bibliográficas — são objetos de estudo em si mesmas, documentos de como diferentes civilizações, em diferentes épocas, compreenderam a linguagem.


A terceira camada são as condições de possibilidade das línguas naturais — conceito que tomamos à análise do discurso foucaultiana (FOUCAULT, 2008), e não à tradição kantiana: não se trata de condições transcendentais a priori, mas de condições históricas, discursivas e estruturais sob as quais determinadas configurações linguísticas podem emergir. Essas condições são formuláveis como universais absolutos, universais relativos ou tendências estatísticas, nos termos da tipologia greenbergiana (GREENBERG, 1963; COMRIE, 1989; CROFT, 2003).


As três camadas se retroalimentam: as línguas geram tradições de descrição; as tradições formulam condições de possibilidade; as condições orientam a observação de novas línguas. É um circuito abdutivo e pancrônico — sem começo fixo nem fim predeterminado.



O espaço autoral: o comentário

Se a obra é uma suma e opera polifonicamente, onde está o autor? A resposta é precisa: no comentário.


O comentário é o gênero epistemológico mais antigo das ciências da linguagem. Os escoliastas gregos glosavam Homero. Os gramáticos alexandrinos comentavam os textos clássicos. Os sábios do Talmud construíam camadas de interpretação sobre camadas anteriores — e a voz vencida nunca era apagada, porque poderia conter verdade para outra época. Os escolásticos formalizaram o comentário em estrutura lógica: videtur quod (parece que), sed contra (mas em contrário), respondeo (respondo). Os juristas glosaram códigos e construíram doutrinas. Os hermeneutas modernos teorizaram as condições de possibilidade do próprio ato de interpretar. Os filólogos como Auerbach demonstraram que o comentário cerrado de um fragmento pode iluminar toda uma civilização. Os exegetas islâmicos fizeram do tafsir corânico um dos mais sofisticados empreendimentos de análise linguística da história — e a tradição gramatical árabe, independente da greco-latina, serviu de matriz para a gramática hebraica medieval.


A obra mobiliza sete tradições de comentário — greco-latina, talmúdica, escolástica, hermenêutica moderna, jurídica, filológica moderna (Auerbach) e islâmica — não como decoração erudita, mas como repertório de procedimentos formais: cada tradição legou métodos específicos e insubstituíveis de exegese textual, e esses métodos são aplicáveis ao comentário gramatical e linguístico.


A inclusão de tradições de origem religiosa (talmúdica, escolástica, islâmica) ao lado de tradições seculares não implica confessionalidade: implica, com Braudel (2004), o reconhecimento de que a coexistência entre laicidade, ciência e religião é mais fecunda do que a ruptura que o racionalismo teria operado entre elas. O pilpul talmúdico, a quaestio escolástica, o i'rab da exegese corânica são tecnologias intelectuais — e métodos não têm confissão.



Os instrumentos: semióticas em paralelo

A análise linguística, nesta obra, é vertebrada pelas tradições semióticas — metáfora que adotamos deliberadamente: assim como a coluna vertebral confere ao corpo humano simultaneamente eixo e flexibilidade, as semióticas conferem à obra sua estrutura axial e sua capacidade de articulação entre os planos.


As tradições semióticas mobilizadas — a semiótica peirciana, a semiótica da cultura da Escola de Tártu-Moscou, a semiologia barthesiana, a semiótica de Morris, a semiótica greimasiana — não são fundidas em uma síntese. São mobilizadas em paralelo, em comparação e em contraste. Diante de um mesmo fenômeno linguístico, pergunta-se o que dele diriam, respectivamente, as diferentes tradições. A divergência entre elas não é contornada — é tematizada: é justamente na diferença entre os olhares que se revelam dimensões do objeto que nenhum olhar isolado alcançaria.


Peirce fornece o enquadramento categorial geral, em virtude do caráter totalizante de sua obra. A Escola de Tártu-Moscou e Barthes operam a relação da língua com outras semioses e seus contextos históricos, sociais e políticos. Morris é situado em sua contribuição e posição no percurso pancrônico da semiótica. Greimas é incluído em contraste — seu imanentismo metodológico é confrontado com a abertura contextual de Lotman e Barthes, e essa confrontação é, ela mesma, produtiva.



O operador: a analogia em quatro estratos

Se a polifonia é o método e a pancronia é o pressuposto, a analogia é o operador que os articula. A analogia, tal como a define Peirce (1977), é a inferência de concordância provável entre objetos que se assemelham sob vários aspectos — uma forma de raciocínio que opera pela projeção de semelhanças observadas sobre domínios ainda não explorados.


Na obra, a analogia não é mero recurso retórico — é princípio epistemológico que opera simultaneamente em quatro estratos:


No uso da língua (estrato imanente), a analogia é operação constitutiva: a regularidade dos paradigmas morfológicos, a criação lexical por analogia, a extensão semântica, a produtividade sintática são manifestações de um princípio analógico imanente ao objeto. Varrão (séc. I a.C.) já o reconhecia em seu De Lingua Latina, definindo a analogia como similitude proporcional entre formas.


Na norma linguística (estrato regulador), a analogia é princípio operante nas gramáticas normativas: paradigmas são apresentados por analogia, exceções são definidas por contraste com a regra analógica. A querela entre analogistas e anomalistas na tradição alexandrina já tematizava essa dimensão.


No método investigativo (estrato comparativo), a analogia é o procedimento que permite comparar línguas, tradições e marcos teóricos — projetando sobre um domínio iluminações obtidas em outro.


Na epistemologia (estrato inferencial), a analogia é forma de raciocínio abdutivo: é a base da prospecção tipológica e da formulação de hipóteses sobre o possível linguístico.


A obra propõe, assim, que a analogia atravessa todos os planos — do uso à epistemologia — e que essa transversalidade não é acidente, mas propriedade estrutural: o pesquisador opera por analogia porque a própria língua opera por analogia.



O quadro de análise: oito vetores, um espaço

A análise linguística praticada na obra opera com oito vetores — oito planos de análise que correspondem a dimensões relativamente autônomas, mas interconectadas, do fenômeno linguístico: o fonético-fonológico, o prosódico, o lexical, o morfossintático, o semântico, o estilístico, o pragmático-discursivo e o metalinguístico.


A relação entre esses vetores é pensada por meio de dois conceitos articulados: o isomorfismo hjelmsleviano (HJELMSLEV, 1975), como hipótese tendencial de correspondência entre os planos, e a imagem heurística do espaço de Hilbert (VON NEUMANN, 1932), como representação geométrica de um espaço multidimensional em que cada plano corresponde a um vetor-base e as interfaces entre planos são modeláveis como projeções. Trata-se de analogia estrutural — não de formalização matemática.


Uma palavra especial sobre a prosódia. A obra adota uma concepção ampliada, na esteira da escola inglesa de J. R. Firth (FIRTH, 1948), para quem a prosódia abrange fenômenos geralmente tratados como segmentais, por poderem afetar domínios maiores que o segmento. A nasalidade vocálica, o acento, a duração, o tom são, nessa perspectiva, traços prosódicos — e a prosódia deixa de ser domínio meramente suprassegmental para se tornar interface múltipla e imanente, que permeia todos os demais planos.


Essa concepção é demonstrada, no artigo inaugural, por meio de um comentário autoral sobre a nasalidade prosódica em línguas como o inglês, o italiano e o espanhol — línguas em que a nasalidade vocálica não é fonologicamente distintiva, mas em que traços prosódicos de nasalidade tecem sonoridades nas palavras, orquestram timbres nas frases, colorem sintagmas de tonalidades nasais, matizam a oralidade. A comparação tipológica com línguas em que a nasalidade é fonológica — como o português e o francês — revela, por contraste, a natureza transversal da prosódia e a pertinência da concepção firthiana.



A natureza da pesquisa

Nos termos de Marconi e Lakatos (2010), a pesquisa se caracteriza como básica (visa à ampliação do conhecimento teórico, sem aplicação prática imediata), qualitativa (não envolve quantificação nem modelagem matemática), exploratória, descritiva e explicativa (inaugura um campo, inventaria fenômenos e tradições, busca estabelecer relações), bibliográfica, documental e comparativa (opera com fontes publicadas, tradições de comentário como documentos, e comparação entre línguas e marcos teóricos). O método de abordagem é hipotético-dedutivo combinado com indutivo e abdutivo, em regime pancrônico. A amostragem é intencional, por representatividade tipológica.


O marco teórico-metodológico configura o que denominamos pluralismo semiótico metodologicamente controlado: a mobilização de múltiplas tradições semióticas não como síntese eclética, mas como comparação deliberada, governada pela analogia, operada pela polifonia, ancorada na pancronia.



A contribuição esperada

A obra busca oferecer quatro contribuições ao campo:


Um gênero discursivo novo para o saber linguístico — a suma polifônica —, que articula a ambição organizadora da summa medieval com o procedimento plurivocal bakhtiniano.


Um quadro epistemológico explícito para a gramática tipológica — pancronia como pressuposto, polifonia como método, analogia em quatro estratos como operador, semióticas em paralelo como instrumentos, comentário como espaço autoral.


Um inventário crítico e comentado de tradições gramaticais, filosófico-linguísticas e semióticas, de escopo pluricivilizacional — que não se limita à tradição greco-latina, mas incorpora a tradição islâmica, a talmúdica, a escolástica, a jurídica, a filológica moderna.


E demonstrações concretas do método em ação — como o comentário sobre a nasalidade prosódica —, que sirvam de modelo para uma análise linguística polifônica e comparativa.



Acesso ao artigo integral

O artigo inaugural, contendo a formulação completa e detalhada de todos os elementos aqui apresentados — incluindo as citações integrais, o elenco das sete tradições de comentário, a decomposição do marco teórico-metodológico em cinco camadas hierárquicas, as hipóteses de pesquisa e as referências bibliográficas completas —, está disponível em acesso aberto:


DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.18634490


Para citação:


MACHADO, Guilherme Gonçalves. Gramática das línguas naturais e seus dialetos: suma polifônica — Da natureza, do escopo e do método da obra (Artigo inaugural). Manuscrito não publicado (work in progress). Fevereiro de 2026. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.18634490




© Guilherme Gonçalves Machado, 2026. Todos os direitos reservados.




 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Pressupostos Teóricos da Pesquisa | Gramática das línguas naturais e seus dialetos | Guilherme Gonçalves Machado

 


Pressupostos Teóricos da Pesquisa

I. Natureza e escopo da investigação

A presente obra constitui uma gramática de natureza enciclopédica, orientada por um viés compreensivo e interpretativo dos fenômenos linguísticos. Trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter teórico-expositivo e dissertativo-argumentativo, que recusa conscientemente o monismo metodológico e a hiperespecialização disciplinar em favor de uma abordagem interdisciplinar rigorosa. O escopo não se limita à descrição estrutural das línguas, mas se estende às dimensões histórica, social, política, estética e simbólica da linguagem como prática humana.


A investigação resulta de uma vida dedicada ao estudo, à leitura e à pesquisa — mais de quatro décadas de imersão contínua em línguas naturais, suas literaturas, suas músicas, suas escrituras sagradas e profanas. Os dados biográficos, nesta perspectiva autoetnográfica (Ellis & Bochner, 2000), não são externalidades a serem descartadas, mas evidência empírica que informa a seleção do corpus, a formulação das hipóteses e a arquitetura mesma da obra.

II. A comunidade de fala como ponto de partida

O conceito de comunidade de fala (speech community), tal como formulado por Leonard Bloomfield (1933), constitui o ponto de partida empírico desta investigação. Para Bloomfield, a comunidade de fala é "um grupo de pessoas que interagem por meio da fala" — definição de caráter territorial e comportamental que ancora a língua no espaço físico: o bairro étnico, a aldeia, a nação.


Esta definição é aqui adotada, mas progressivamente expandida em três direções:


(a) Expansão sociolinguística. William Labov (1972) desloca o critério definidor da comunidade de fala: não mais a uniformidade de uso, mas a participação em normas compartilhadas de avaliação. A comunidade de fala laboviana é um grupo que compartilha atitudes, julgamentos e estereótipos sobre a língua — mesmo quando seus membros falam de modos distintos. Isso permite integrar a variação como dado constitutivo, não como ruído.


(b) Expansão sociológica. Pierre Bourdieu (1982) situa a comunidade de fala no interior de um campo de forças simbólicas onde se disputam legitimidade, prestígio e o direito à nomeação. A língua não é apenas meio de comunicação; é instrumento de dominação, marca de distinção, objeto de violência simbólica. Falar é sempre falar de um lugar — social, institucional, axiológico.


(c) Expansão espacial. A comunidade de fala não habita apenas um território abstrato; ela se inscreve em paisagens — visuais, sonoras, temporais — que materializam a presença das línguas no mundo sensível. Esta expansão é desenvolvida na seção seguinte.

III. O espaço como macrocategoria multidimensional

A categoria espaço, tal como operacionalizada nesta obra, constitui uma macrocategoria permanente de análise, composta por cinco dimensões sobrepostas e mutuamente constitutivas:


(i) Espaço geográfico-territorial. Substrato físico onde a comunidade de fala se enraíza: fronteiras, acidentes geográficos, rotas de migração, distribuição demográfica. A tradição da geografia linguística (Gilliéron & Edmont, 1902-1910) e da geossociolinguística brasileira fornece os instrumentos cartográficos para este nível de análise.


(ii) Espaço social. Estrutura de posições ocupadas pelos falantes segundo variáveis de classe, gênero, geração, escolaridade e rede de interação. A sociolinguística variacionista (Labov, 1972; Weinreich, Labov & Herzog, 1968) oferece o aparato descritivo para a estratificação linguística.


(iii) Espaço simbólico. Campo de produção, circulação e disputa de sentidos e valores, onde operam a violência simbólica e as lutas por legitimidade linguística (Bourdieu, 1982). É neste espaço que se decide o que é "língua" e o que é "dialeto", o que é "culto" e o que é "erro", o que merece escrita e o que permanece apenas oral.


(iv) Paisagem linguística. Presença visual das línguas no espaço público: placas, cartazes, grafites, letreiros, fachadas, monumentos — toda escrita exposta à leitura coletiva. O campo de estudos da Linguistic Landscape (Landry & Bourhis, 1997; Shohamy & Gorter, 2009), designado na tradição germanófona como Sprachlandschaft, oferece as ferramentas analíticas para este nível. A paisagem linguística não é neutra: ela hierarquiza línguas, visibiliza algumas e apaga outras, opera como índice de vitalidade etnolinguística e como arena de disputas identitárias.


(v) Paisagem sonora. Ambiente acústico onde as línguas ressoam: vozes nas ruas, músicas irradiadas, pregões, sinos, chamados ao culto, cantos de trabalho, ruídos urbanos. O conceito de soundscape, desenvolvido pelo compositor e pesquisador R. Murray Schafer (1977), permite abordar a dimensão auricular da presença linguística no espaço. A língua cantada — das tradições populares às mídias de massa — é componente constitutivo desta paisagem.


Estas cinco dimensões não operam em isolamento. Interpenetram-se, sobrepõem-se, tensionam-se. A placa bilíngue num bairro imigrante é simultaneamente marca territorial, índice sociolinguístico, objeto de disputa simbólica, elemento visual e, quando lida ou cantada, componente sonoro.

IV. A paisagem como acúmulo de tempos

A paisagem, tomada como categoria epistemológica, é ponto de convergência de múltiplos campos do conhecimento: a geografia, a semiótica, a antropologia, a arquitetura, a história, a estética. Como observou o geógrafo Milton Santos:


"A paisagem é um acúmulo de tempos", "uma escrita sobre a outra", "um conjunto de objetos que têm idades diferentes", "uma herança de muitos diferentes momentos" (SANTOS, 1988; 2006).


Nesta perspectiva, a paisagem linguística de um território não é dado estático, mas palimpsesto: camadas de línguas, de escritas, de sonoridades depositadas pelo tempo histórico. No Brasil, esse palimpsesto inclui: os substratos das línguas indígenas dos troncos Tupi e Macro-Jê; as camadas das línguas africanas trazidas pela diáspora forçada; os estratos das línguas de imigração europeia e asiática; a hegemonia expansiva do português brasileiro em suas múltiplas variedades; as resistências das línguas minoritárias em comunidades quilombolas, indígenas e imigrantes.


Uma escuta idônea e um olhar atento revelam uma paisagem linguística brasileira exuberante, plural, diversa — em frontal oposição ao mito do Brasil como país de uma só língua.

V. A semioesfera como horizonte

O conjunto dessas dimensões espaciais e temporais inscreve-se no horizonte mais amplo da semioesfera, conceito desenvolvido por Iuri Lotman (1984, 1990) no âmbito da Escola Semiótica de Tartu-Moscou. A semioesfera designa o espaço semiótico total fora do qual a produção de sentido não é possível — análogo à biosfera para os organismos vivos.


Enquanto conceito-moldura, a semioesfera permite situar a análise das paisagens linguísticas, sonoras e visuais no interior de um continuum semiótico onde cultura, língua, memória e território se constituem mutuamente. A fronteira da semioesfera — zona de tradução, de contato, de tensão entre o próprio e o alheio — é particularmente produtiva para pensar as situações de plurilinguismo, diglossia e conflito linguístico.


Todavia, para a análise operacional de cada tipo de paisagem, recorremos a ferramentas específicas: Landry e Bourhis para a paisagem visual, Schafer para a paisagem sonora, Milton Santos para a temporalidade acumulada, Bourdieu para a dimensão simbólica. A semioesfera é o horizonte; as paisagens são os recortes.

VI. A Literatura Comparada como escopo interdisciplinar

A Literatura Comparada constitui um dos escopos teóricos fundamentais desta investigação. Seu aporte intrinsecamente interdisciplinar legitima e instrumentaliza o trânsito entre línguas, literaturas, artes e campos do conhecimento que esta gramática se propõe a realizar.


Adotamos a definição programática de Álvaro Manuel Machado e Daniel-Henri Pageaux:


"[...] disciplina atenta aos fenómenos especificamente literários, mas situando-os numa visão cultural englobante; disciplina cada vez mais preocupada em eliminar as barreiras entre os vários domínios da investigação universitária do fenómeno literário em si, quer ampliando os estudos linguísticos como fonte de culturas diversas mas interligadas, quer estabelecendo contactos entre a literatura e as outras formas da actividade criadora do homem. Em suma, disciplina de uma nova forma de humanismo" (MACHADO; PAGEAUX, 1988).


Esta concepção encontra eco na formulação clássica de Henry H. H. Remak:


"[…] o estudo da literatura além dos limites de um país particular, e o estudo das relações entre, de um lado a literatura e de outro, outras áreas do conhecimento e da crença tais como as artes (por exemplo, a pintura, a escultura, a arquitetura, a música), a filosofia, a história, e as ciências sociais, a ciência, a religião, etc. Em suma, é a comparação entre uma literatura e outra ou outras, e a comparação da literatura com as demais esferas da expressão humana" (REMAK, 1961).


A Literatura Comparada assim entendida oferece a moldura epistemológica para os tomos desta gramática que ultrapassam a descrição estrutural e adentram os domínios da canção (Tomo IV: "E Seus Cantares"), da imagem (Tomo V: "E Sua Iconografia"), da espiritualidade (Tomo VI: "E Suas Tradições Espirituais") e da narrativa histórica (Tomo VII: "E Suas Histórias"). Não se trata de outra abordagem senão de reconhecer que a língua é indissociável das formas culturais em que se realiza.

VII. A tradição filológica e a linguística histórica

A dimensão diacrônica da investigação ancora-se na tradição da Filologia Românica e da Linguística Histórica Comparada. A obra de Wilhelm Meyer-Lübke (Grammatik der Romanischen Sprachen, 1890-1902) permanece referência incontornável para a compreensão da diferenciação das línguas românicas a partir do latim vulgar.


Cumpre observar, como o fez Sílvio Elia (1974), que um estudo que considera diferentes sincronias constitui, em rigor, um estudo diacrônico — o qual não se confunde, contudo, com a Linguística Histórica propriamente dita. A presente obra opera em regime pancrônico: atravessa a totalidade do tempo histórico disponível, do povoamento pré-colombiano às dinâmicas contemporâneas, tratando a cronologia como campo unificado de investigação.

VIII. Critérios de cientificidade

A presente investigação assume o compromisso de conformidade com dois dos três requisitos de cientificidade propostos pelo linguista dinamarquês Louis Hjelmslev nos Prolegômenos a uma teoria da linguagem (1943):


(a) O princípio da não-contradição. Exigência mínima de inteligibilidade, premissa da comunicação científica. Um conhecimento particular só pode existir em coerência quando não contradiz o conhecimento geral do campo em que se insere, nem os conhecimentos de campos adjacentes.


(b) O princípio da exaustividade. A descrição deve dar conta da totalidade do objeto, não apenas de fragmentos convenientes. Este princípio fundamenta a recusa do recorte hiperespecializado que, ao ganhar profundidade, perde a perspectiva fenomenológica do todo.


Quanto ao terceiro requisito hjelmsleviano — a simplicidade —, esta obra dele se afasta deliberadamente. Em seu lugar, adota-se o princípio da complexidade: o reconhecimento de que as línguas naturais são fenômenos multidimensionais, irredutíveis a um único domínio explicativo, e que a descrição adequada exige a articulação de múltiplas perspectivas teóricas e metodológicas.

IX. Síntese: um programa de pesquisa interdisciplinar

O arcabouço teórico aqui delineado pode ser sintetizado como um programa de pesquisa interdisciplinar que toma o espaço geográfico e suas paisagens como categoria permanente de análise multissemiótica. A paisagem — visual, sonora, temporal — é categoria epistemológica capaz de revelar o homem e sua cultura: sua relação consigo mesmo e com o outro, sua relação com a natureza, com a economia, com a arquitetura, com o processo civilizatório.


O que a paisagem tem a dizer além da mera função descritiva de informar sobre características geográficas de um lugar? Tudo, ou quase tudo. A paisagem linguística de um território é índice de sua história, espelho de suas hierarquias, arena de suas disputas, arquivo de suas memórias. Descrevê-la com rigor é, ao mesmo tempo, compreendê-la e interpretá-la.


É este o horizonte da presente Gramática das línguas naturais e seus dialetos.


Referências Bibliográficas

ALTENHOFEN, Cléo Vilson. Bases para uma política linguística das línguas minoritárias no Brasil. In: NICOLAIDES, Christine et al. (Org.). Política e Políticas Linguísticas. Campinas: Pontes, 2013.


BLOOMFIELD, Leonard. Language. New York: Henry Holt, 1933.


BOURDIEU, Pierre. Ce que parler veut dire: l'économie des échanges linguistiques. Paris: Fayard, 1982.


ELIA, Sílvio. Preparação à linguística românica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1974.


ELLIS, Carolyn; BOCHNER, Arthur P. Autoethnography, Personal Narrative, Reflexivity: Researcher as Subject. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. (eds.). Handbook of Qualitative Research. 2nd ed. Thousand Oaks: Sage, 2000.


GILLIÉRON, Jules; EDMONT, Edmond. Atlas linguistique de la France. Paris: Champion, 1902-1910. 10 vols.


HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. Tradução de J. Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, 1975 [1943].


LABOV, William. Sociolinguistic Patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1972.


LANDRY, Rodrigue; BOURHIS, Richard Y. Linguistic Landscape and Ethnolinguistic Vitality: An Empirical Study. Journal of Language and Social Psychology, v. 16, n. 1, p. 23-49, 1997.


LOTMAN, Iuri. Universe of the Mind: A Semiotic Theory of Culture. Translated by Ann Shukman. London: I.B. Tauris, 1990.


MACHADO, Álvaro Manuel; PAGEAUX, Daniel-Henri. Da Literatura Comparada à Teoria da Literatura. Lisboa: Edições 70, 1988.


MEYER-LÜBKE, Wilhelm. Grammatik der Romanischen Sprachen. Leipzig: Fues's Verlag (R. Reisland), 1890-1902. 4 vols.


REMAK, Henry H. H. Comparative Literature: Its Definition and Function. In: STALLKNECHT, Newton P.; FRENZ, Horst (eds.). Comparative Literature: Method and Perspective. Carbondale: Southern Illinois University Press, 1961.


SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado: Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Geografia. São Paulo: Hucitec, 1988.


SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006 [1996].


SCHAFER, R. Murray. The Soundscape: Our Sonic Environment and the Tuning of the World. Rochester, VT: Destiny Books, 1994 [1977].


SHOHAMY, Elana; GORTER, Durk (eds.). Linguistic Landscape: Expanding the Scenery. New York: Routledge, 2009.


WEINREICH, Uriel; LABOV, William; HERZOG, Marvin I. Empirical Foundations for a Theory of Language Change. In: LEHMANN, Winfred P.; MALKIEL, Yakov (eds.). Directions for Historical Linguistics. Austin: University of Texas Press, 1968.

SEMIOGRAFIA Sistema Axiomático de Operações Semióticas sobre Matrizes N-Dimensionais de Signos

https://zenodo.org/records/19546051 Résumé   Ce working paper propose la Sémiographie : un système axiomatique d'opérations sémiotiqu...