Uma Investigação Teórico-Expositiva em Literatura Comparada
e Filologia sobre a Paisagem como Categoria Multissemiótica
de Análise Cultural
Guilherme Gonçalves Machado
A presente investigação propõe uma hermenêutica da paisagem como categoria multissemiótica de análise cultural
no contexto brasileiro, articulando os planos linguístico, literário e musical
numa perspectiva interdisciplinar fundada na Literatura Comparada e na Filologia,
esta última entendida, conforme Renan, como "ciência dos produtos do espírito humano" e,
conforme Bassetto, como "pesquisa científica do desenvolvimento e das características
de um povo ou de uma cultura com base em sua língua e/ou em sua literatura".
Parte-se da hipótese de que as paisagens brasileiras — naturais, humanas, linguísticas e musicais —
constituem um fio condutor permanente da produção simbólica nacional, operando como
elemento estruturante da identidade cultural desde os primeiros registros documentais até as manifestações
contemporâneas da música popular, e de que a primeira diferenciação empiricamente
detectável dessa constituição simbólica se processa no plano lexical da documentação colonial.
Mediante análise interpretativo-compreensiva de um corpus textual multigenérico —
cuja amplitude se justifica pela tradição alemã do conceito amplo de literatura, recepcionada no Brasil
por Sílvio Romero — que abrange desde a Carta de Pero Vaz de Caminha (1500) até canções da música
popular brasileira contemporânea, passando pela poesia de Gregório de Matos Guerra, pelo teatro
plurilíngue dos jesuítas, pela tradição poética do Romantismo ao Modernismo e pela canção popular
de diferentes gêneros e regiões, demonstra-se que a paisagem não funciona, nessas produções, como mero
cenário descritivo, mas como matriz epistemológica a partir da qual a cultura brasileira conhece, nomeia e
significa seu espaço, constituindo uma identidade que se define pela pluralidade linguística,
pela hibridização — entendida, com García Canclini (1989), como processo assimétrico de combinação
de estruturas e práticas culturais diversas — de matrizes indígenas, africanas e europeias e pela
permanente reinvenção simbólica do território. A pesquisa mobiliza contribuições da Geografia
Humanista (Tuan, Santos, Cosgrove, Berque), da Musicologia (Schafer, Wisnik, Tatit), dos Estudos de
Paisagem Linguística (Landry e Bourhis, Shohamy) e da Linguística Histórica brasileira
(João Ribeiro, Yeda Pessoa de Castro), propondo uma metodologia filológico-comparatista de análise
multissemiótica que articula descrição, análise e interpretação na investigação das relações entre espaço,
linguagem e cultura.
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