Gramática das Línguas Naturais e Seus Dialetos
Uma Introdução
Autor: Guilherme Gonçalves Machado Contato: polyographbr@gmail.com
Esta introdução apresenta os fundamentos epistemológicos e metodológicos de uma obra em andamento, concebida como uma gramática das línguas naturais e seus dialetos, organizada sob uma ótica geossociolinguística e semiótica.
I. Filiação Genética e a Entrada das Línguas na História
Em linguística, a filiação genética conecta uma língua ao estágio comum a várias outras línguas — com exceção das línguas isoladas — a partir do qual ela se desenvolveu no transcurso do tempo e dos espaços geográficos, sociais e simbólicos, no seio de uma comunidade de fala (Bloomfield). Tal filiação indica a gênese das línguas naturais, seus aparecimentos enquanto fenômenos sociais e suas entradas na história enquanto objetos de saber, quando são capturadas pela historiografia ou pela tradição oral.
Esse momento de captura — esse aparecimento no fluxo histórico — funciona como um índice no sentido propriamente semiótico e etimológico, apontando deiteticamente para o que esta obra designa como marco zero de uma língua: o ponto a partir do qual ela se torna objeto passível de observação, análise e conhecimento. A definição completa deste conceito, que pertence ao arcabouço teórico próprio desta obra, será desenvolvida nos capítulos subsequentes. Por ora, basta indicar que ele se inscreve na semioesfera (Lotman) — não como importação integral deste conceito, mas como utilização cirúrgica de um instrumento semiótico que permite delimitar teoricamente nosso objeto de estudo no campo dos estudos da linguagem.
II. Metodologia: Entre Tradições e Necessidade Epistemológica
A semiótica instrumentaliza um diálogo profundo e abrangente com as muitas ciências específicas do campo dos estudos da linguagem: com a filosofia da linguagem; com a gramática de diferentes tipologias, inclusive a gramática tradicional de tradição greco-latina; e com a linguística em suas diferentes configurações teórico-metodológicas. Esta obra recusa o monismo metodológico — a confinação do conhecimento científico em uma única tradição ou disciplina — na medida em que tal confinamento se mostra insuficiente para dar conta da plenitude fenomenológica do objeto que é a língua natural.
Essa posição não é nova, nem é exceção na história do pensamento. Um dos nossos métodos, consubstanciado na revisão bibliográfica, é uma recuperação e reativação das práxis intelectuais dos escoliastas, dos glosadores, dos comentadores e dos hermeneutas, que vicejaram em torno dos textos religiosos, gramaticais, literários, jurídicos e filosóricos. Esses intelectuais medievais e renascencistas atravessavam fronteiras entre campos do conhecimento não por dispersão, mas por necessidade epistemológica — exatamente a necessidade que esta obra reconhece como fundamental. Como anotou Erich Auerbach em 1943: "A explicação dos textos, denominada comentário [...] foi praticada desde a Antiguidade e adquiriu importância particularmente grande na Idade Média e na Renascença" (Auerbach, 1943, p. 54).
A pesquisa assume caráter participativo, na medida em que o autor está imerso em um processo contínuo e sistemático de estudo, aprendizagem e uso efetivo de línguas naturais desde a década de 1980, seja como língua instrumental para leitura e escrita, seja como língua de herança, seja como processo de aquisição e aprendizagem de segunda língua (L2). No âmbito desta metodologia participativa — ou, mais especificamente, na linguística moderna, da autoetnografia — os dados biográficos constituem evidência empírica para a seleção do corpus, na medida em que são submetidos aos mesmos critérios de sistematicidade e verificabilidade que informam a pesquisa científica, deixando de ser apenas "memórias" e tornando-se dados de pesquisa.
No que se refere às línguas de herança mencionadas, o uso dessa categoria dá-se em regime estritamente hipotético e indiciário. A referência à língua italiana decorre de ascendência materna, associada à bisavó Diocilla Lessa, cuja origem geográfica exata permanece desconhecida, restando apenas marcas onomásticas. De modo análogo, a menção a línguas judaicas vincula-se à linhagem paterna, associada ao sobrenome Gonçalves, cuja possível origem sefardita constitui, no presente momento, apenas uma hipótese de trabalho, ainda em processo de investigação e sem certificação histórica ou genealógica definitiva. Em ambos os casos, o recurso à noção de língua de herança não se funda em afirmações identitárias substancialistas, mas na consideração metodológica de traços históricos, culturais e simbólicos que informam práticas linguísticas, memórias familiares e disposições de aprendizagem.
III. Requisitos de Cientificidade
Esta escolha epistemológica resulta do esforço em estar em conformidade com dois requisitos de cientificidade propostos pelo linguista dinamarquês Louis Hjelmslev: respeitar o princípio da não-contradição e a exaustividade. Estamos em desacordo com o seu terceiro requisito, a simplicidade — entendida por Hjelmslev como parcimônia explicativa — substituída neste arcabouço teórico pela complexidade, concebida não como o mero oposto da simplicidade, mas como reconhecimento de que as línguas naturais são fenômenos que não se reduzem a um único domínio explicativo.
Em nossa teoria e práxis — que conjuntamente informam a metodologia adotada — concebemos as línguas naturais como um fenômeno complexo que se organiza, segundo um percurso dedutivo, do geral ao particular, da seguinte forma: como um fenômeno histórico, inscrito na longa duração das tradições, das instituições e dos processos de transmissão cultural; como um fenômeno social, compreendendo suas dimensões pragmática, discursiva e conversacional, enquanto prática regulada e intersubjetiva; como um fenômeno cognitivo, relativo às estruturas de representação, categorização e inferência que mediam a experiência linguística; como um fenômeno biológico, e, nesse sentido, neurolinguístico, ancorado no substrato material da espécie humana; como um fenômeno psicolinguístico, no qual a dimensão do inconsciente — no sentido junguiano, ou seja, das estruturas arquetípicas coletivas e seus processos de individuação — se manifesta no processamento e na experiência individual da língua; e, por fim, como um fenômeno estético, no qual a língua se realiza em sua máxima potência expressiva, formal e simbólica. Este último fenômeno opera em uma lógica diferente dos demais níveis, sendo tratado de forma específica na obra.
IV. A Não-Contradição Como Exigência Científica
O princípio da não-contradição remonta a Aristóteles e é uma exigência mínima de inteligibilidade e premissa da comunicação social. Tal princípio permeia a lógica formal, o pensamento e a escrita jurídica, e mesmo a semiosfera religiosa, principalmente quando se institui como teologia e exegese. A exceção — a admissão com ressalvas da contradição — ocorre nos contextos místicos das tradições espirituais.
Na hiperespecialização contemporânea, muitas vezes o enquadramento de um trabalho que se quer científico em um paradigma epistemológico é ignorado ou está ausente, o que compromete a validação científica do mesmo. Um conhecimento particular só pode existir em coerência quando está em conformidade com um conhecimento geral, contextual, em diálogo aberto e transparente com o conjunto universo daquele campo do conhecimento. Produzir um conhecimento em fonética acústica, por exemplo, não pode estar em contradição com os conhecimentos da física acústica. Também não se pode prescindir das contribuições científicas de uma área adjacente.
Foi o que ocorreu com a gramática tradicional e com a filologia, que necessariamente precisaram se adaptar às conquistas da linguística nos séculos dezenove e vinte — sem que, todavia, suas contribuições próprias se tornassem dispensáveis. É um dever do cientista, do intelectual, do pesquisador manter-se em diálogo aberto e permanente, e, para a garantia de auditabilidade, esse diálogo deve ser transparente.
Pretende-se demonstrar, com os argumentos até aqui desenvolvidos, que não se pode atender ao requisito de exaustividade quando, através da especialização, perde-se a perspectiva e a plenitude fenomenológica do objeto de estudo.
V. Intermitência e Continuidade Linguística
Este aparecimento e esta entrada no fluxo histórico de uma língua podem ser intermitentes, sendo o hebraico o caso mais exemplar e comumente citado na historiografia sobre o tema — uma língua que, após períodos de uso litúrgico restrito, retomou a condição de língua viva no século XX, com consequências linguísticas ainda em desenvolvimento.
Esta intermitência também ocorre com frequência no nível da análise linguística das ciências do léxico (lexicografia, lexicologia, terminologia). Cumpre observar, como o fez o mestre Silvio Elia na tradição dos estudos linguísticos em língua portuguesa, que um estudo considerando diferentes sincronias constitui, em rigor, um estudo diacrônico, o qual não se confunde, contudo, com a ciência da Linguística Histórica propriamente dita.
VI. As Línguas Románicas e o Latim Vulgar
Na literatura linguística e historiográfica, as línguas románicas desenvolveram-se a partir do latim vulgar difundido pelo Império Romano entre povos vencidos e subjugados em distintas regiões do globo. Decorre daí a pertinência histórica e conceitual do termo "império". De modo análogo, consolidaram-se na tradição filológica as noções de Eslavo Comum e Germânico Comum, a partir das quais se diferenciaram, entre outras, o russo, o sérvio e o croata, no primeiro caso, e o inglês, o alemão e o neerlandês, no segundo.
A diferenciação de uma língua natural em relação à sua fonte primeira pode ocorrer em graus distintos nos diferentes planos de observação e análise linguísticas: no plano fonético e/ou fonológico, no léxico, nos planos da morfossintaxe e da semântica, no plano do seu uso escrito e oral (plano pragmático-discursivo) e, ainda, em sua distribuição e ocorrência territorial.
O filólogo Wilhelm Meyer-Lübke (1861–1936), em sua obra seminal Grammatik der Romanischen Sprachen, subscreve como tarefa da filologia románica essa diferenciação nas línguas: "A filologia románica tem por objetivo expor como o vocabulário latino se modificou, quanto à forma e ao sentido das palavras, nos diferentes países onde se falou o románico" (Meyer-Lübke, 1890).
VII. O Português no Brasil: Contatos e Diferenciação
O português peninsular, quando foi transplantado cruzando o Atlântico para esta América, encontrou substratos linguísticos diversos. Durante a própria travessia pelo Oceano Atlântico — ao longo de décadas e centenas de anos, do século XVI ao século XIX — e durante as intensas ondas imigratórias deste mesmo período, o português encontrou-se em contato linguístico com um grande número de línguas do continente africano, no contexto da escravidão. Já aqui na América, houve o contato da língua portuguesa europeia com centenas de línguas indígenas — dos principais troncos Tupi e Macro-Jê e de diversas famílias linguísticas que compõem a complexidade glotológica do território brasileiro — um contato que ainda ocorre nos dias atuais, na medida em que o Brasil é um território plurilíngue de dimensões continentais.
Esse plurilinguismo brasileiro compreende: uma extensa fronteira com países de língua espanhola americana; dezenas de Línguas Brasileiras de Imigração (Altenhofen); as línguas dos quilombolas; línguas litúrgicas cristãs e afro-brasileiras (as "línguas de santo"), como sempre observou Ieda Pessoa de Castro. Tudo isso conforma a ocorrência territorial de uma língua como um importante vetor na diferenciação linguística da mesma, sendo incontornável a contribuição da geografia linguística desde o seu advento acadêmico com Jules Gilliéron no século XIX.
O filólogo e professor Gladstone Chaves de Melo observou que no caso das línguas románicas nunca houve um ponto no tempo em que rapidamente ou abruptamente quaisquer delas obtiveram sua autonomia linguística em relação ao latim vulgar: "[...] nunca houve um momento, na história dos povos romanizados, em que tivesse acabado o latim e começado um dos romances. Sempre houve continuidade lingüística" (Melo, 1981, p. 65). Tratou-se de um processo lento, de diferenciação progressiva nos diferentes planos de observação e análise da língua.
VIII. Riqueza Residual e os Gêneros Discursivos
Há uma riqueza imensa que foi descartada como resíduo ou ruído pelo paradigma canônico do que se convencionou chamar gramática tradicional, de caráter prescritivo com status social de norma. Essa riqueza residual está sedimentada em diferentes gêneros discursivos que constituem o corpus linguístico em potência e latência de cada idioma. Em cada época e/ou estágio de uma língua há camadas de processos e possibilidades não-canônicas na virtualidade infinita dos gêneros discursivos — para além do cânone tradicional e oficial da gramática e mesmo do cânone poético e literário — onde jaz toda uma riqueza linguística residual que esta obra pretende, em parte, recuperar e analisar.
IX. Organização da Obra
Na presente obra, as línguas naturais distribuem-se em grandes grupos organizados sob uma ótica específica. Longe de propor uma nova tipologia estanque ou ceder ao mero arbítrio, tal divisão alicerça-se em critérios genéticos e geossociolinguísticos, desenhando arquiteturas que revelam afinidades históricas e culturais para além da genética linguística estrita. Sempre que o método exigir, outros critérios de classificação serão sobrepostos sem prejuízo das tipologias anteriores já adotadas.
A obra é concebida como uma construção que se desenvolve ao longo de dez tomos, abrangendo desde a gramática das línguas até suas expressões discursivas, musicais, iconográficas, espirituais, narrativas, populacionais, lexicográficas e sistemas de escrita. As citações diretas sempre manterão as ortografias da época, de modo que a dimensão da diacronia das línguas esteja transparente no texto.
Referências Bibliográficas
AUERBACH, Erich. Introdução aos Estudos Literários. 1943.
ELIA, Sílvio. Preparação à linguística românica. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1974.
MELO, Gladstone Chaves de. Iniciação à filologia e à linguística portuguesa. 6. ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1981.
MEYER-LÜBKE, Wilhelm. Grammaire des langues romanes. Tomo I: Phonétique. Paris: H. Welter, 1890.
Texto © Guilherme Gonçalves Machado. Obra em andamento. Publicação independente.
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